O setor automotivo português fechou 2024 com um marco histórico: quase 46 bilhões de euros em volume de negócios. Foi um ano de recorde, impulsionado pelo avanço do faturamento, pela criação de empregos e por uma aceleração expressiva nas vendas de veículos elétricos. Os dados divulgados pela ACAP – Associação Automóvel de Portugal reforçam o papel estratégico dessa indústria na economia do país.
Ao mesmo tempo, o cenário traz um contraste difícil de ignorar. Embora o setor esteja em alta, os portugueses estão trocando de carro com menos frequência, e a frota nacional segue envelhecendo. Ainda circulam nas estradas do país cerca de 1,6 milhões de veículos com mais de 20 anos, o que levanta dúvidas sobre a velocidade real da renovação da frota e do progresso na transição energética.
Diante desse quadro, a ACAP voltou a defender um novo Plano de Incentivo ao Abate e uma reformulação da tributação automotiva. A proposta passa por reduzir o imposto no momento da compra e ampliar a cobrança ao longo da vida útil do veículo. Neste episódio do Auto Rádio, podcast da Razão Automóvel com apoio do Pisca Pisca, a discussão vai ao ponto central: como tornar o automóvel mais acessível sem colocar em risco a arrecadação e as metas ambientais.
O setor automóvel em Portugal
A conversa começa pelos indicadores macro. A indústria automotiva segue entre os grandes motores das exportações nacionais, reunindo milhares de empresas envolvidas na produção, na distribuição e na comercialização de veículos e componentes.
Mas logo o debate se desloca para o lado do consumidor. Em Portugal, uma parcela relevante do preço final de um carro é composta por impostos. Somando ISV (Imposto sobre Veículos) e IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado), a carga tributária na compra pesa diretamente na decisão de comprar - ou de adiar a troca.
É nesse contexto que entra a reforma proposta pela ACAP: aliviar a tributação na aquisição e fortalecer a lógica de imposto vinculada ao uso e à propriedade. O episódio detalha o que está em jogo e como essa mudança poderia funcionar.
Incentivo ao abate
Com uma frota cada vez mais antiga - a idade média dos veículos em circulação ficou acima de 14 anos em 2024 - e sob pressão crescente das metas ambientais europeias, a ACAP apresentou uma proposta objetiva: criar um novo programa de incentivo ao abate capaz de tirar 40 mil veículos antigos das ruas já em 2026. Mas fica a pergunta: essa é a resposta que Portugal precisa? E o incentivo deveria ficar restrito à compra de veículos novos ou também contemplar usados mais recentes e menos poluentes?
O tema se conecta a outro dado importante: a participação crescente de usados importados. Em 2025, entraram em Portugal 120 787 automóveis usados vindos do exterior, um novo recorde histórico - volume equivalente a 53,7% das novas matrículas. O ponto é que a idade média desses usados importados é de 7,9 anos, e mais de um terço está na faixa entre cinco e 10 anos.
Eletrificação e desigualdades
A eletrificação também foi um eixo central do debate. Portugal aparece entre os países com maior participação de elétricos nas vendas totais: 23,2% em 2025. É um sinal claro de que a transição energética está avançando. Ainda assim, a adoção desses modelos continua concentrada em faixas específicas de renda e em regiões com melhor oferta de infraestrutura de recarga, evidenciando um mercado que evolui em ritmos diferentes.
No fim, os números ajudam a explicar o momento, mas não contam tudo. O setor automotivo português está forte, competitivo e relevante para a economia, porém enfrenta um desafio estrutural complexo: conciliar crescimento, sustentabilidade ambiental e acessibilidade para o consumidor. Entre recordes de faturamento, propostas de incentivo ao abate e carros com mais de duas décadas ainda rodando, o país se vê diante de uma decisão importante sobre o modelo de mobilidade que pretende construir para o futuro.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Por isso, não faltam motivos para acompanhar o episódio mais recente do Auto Rádio - e o programa volta na próxima semana nas plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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