Pular para o conteúdo

Metas de emissões 2035: Comissão Europeia, China e EUA em choque

Carro elétrico futurista azul carregando em uma estação interna com turbinas e painéis solares ao fundo.

Quem alimentou a esperança de ver a Comissão Europeia dar um passo atrás nas metas de emissões para 2035 acabou, inevitavelmente, frustrado. Houve sinalização de mudança, criou-se expectativa, mas a entrega foi tímida. A meta passou de uma redução de CO2 de 100% para 90% em 2035. No texto, soa como virada. No mundo real, mal passa de um retoque.

Na China e nos Estados Unidos, é bem possível que essa “mudança” esteja sendo recebida com risadas. Mas antes disso, vale destrinchar o que Bruxelas alterou - e de que forma.

O “recuo” da Comissão Europeia nas metas de emissões para 2035

Na prática, esses 10% de folga devem ser cobertos por uma combinação de medidas: uso de combustíveis neutros em carbono, adoção de aço com menor densidade de carbono (hipocarbônico) e a criação de “super créditos” para uma nova categoria de carros, entre outros mecanismos. Esse último item é, provavelmente, uma das poucas observações realmente positivas do pacote.

O que muda na prática: combustíveis neutros, aço hipocarbônico e “super créditos”

O resultado, no entanto, é que quase nada muda. Pelo menos para a imensa maioria dos europeus. Se essa arquitetura permanecer até 2035, o motor de combustão interna tende a ficar restrito a espaços muito específicos: esportivos e modelos de luxo. A anunciada troca de estratégia terminou, no fim, como uma troca que não se concretizou. Como eu escrevi no começo desta semana, não era isso que eu esperava da Comissão Europeia. E, na verdade, acredito que ninguém esperava.

China e Estados Unidos: pragmatismo e custo

A diferença fica ainda mais nítida quando se olha para fora da Europa. Na China - hoje o maior mercado automotivo do planeta e o centro de gravidade da cadeia de valor das baterias - a postura é claramente mais pragmática do que a europeia.

A China Society of Automotive Engineers (CSAE) atualizou os objetivos para a indústria automotiva - a terceira revisão desde 2016 - e projeta que, em 2040, veículos com motor de combustão interna (incluindo híbridos, PHEV, EREV) ainda devem responder por aproximadamente um terço das vendas de automóveis leves de passageiros e por mais de 50% dos veículos comerciais. Sim, é isso mesmo: a China prevê que em 2040 o motor de combustão ainda vai estar aí para as curvas.

Indo agora para o outro lado do oceano, nos EUA, Donald Trump optou por aliviar as metas de consumo de combustível (CAFE) da indústria automotiva com um objetivo específico: reduzir o preço dos carros para os consumidores. Quem considerar isso grotesco deveria lembrar que, em Portugal, conseguimos fazer ainda pior: a nossa tributação não só não incentiva como penaliza(!) os veículos mais eficientes.

Se o tema não fosse sério - e se não estivéssemos no olho do furacão… - também daria para acompanhar chineses e americanos e achar alguma graça dessas indefinições da Comissão Europeia.

O peso da indústria automotiva na UE

O problema é que está em jogo um setor que emprega 13,6 milhões de pessoas, o equivalente a 8,1% dos postos trabalho da indústria de transformação na UE. Um setor que rende 414,7 mil milhões de euros em arrecadação tributária para os Estados-Membros, que garante um superávit comercial de 93,9 mil milhões de euros para a União e que, somado, representa mais de 8% do PIB europeu.

Em uma frase: a indústria automotiva é o maior motor de inovação industrial da Europa - e estamos brincando com isso. Por esse motivo, vale resgatar as palavras quase proféticas do ex-comissário europeu para o mercado interno, Thierry Breton: “não parem de produzir carros com motor de combustão”.

É uma posição de bom senso, e ela não entra em conflito com uma aposta nos carros elétricos. Eles serão o futuro, mas talvez esse futuro não chegue já em 2035…

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário