Vários países europeus passaram a soar o alarme: os ônibus elétricos do fabricante chinês Yutong, hoje amplamente presentes no continente, podem ser administrados à distância. O caso, que ganha proporção dia após dia, evidencia o quanto a Europa ficou dependente de tecnologias vindas do chamado Império do Meio.
Testes na Noruega expõem controle remoto nos ônibus elétricos Yutong
A controvérsia veio à tona na Noruega. Lá, a operadora pública Ruter - responsável por cerca de metade do transporte do país - decidiu submeter sua frota de ônibus elétricos a testes de segurança. Para isso, os veículos foram levados para uma mina subterrânea, sem qualquer conexão externa, com o objetivo de medir o nível de autonomia digital.
O resultado causou espanto. Diferentemente dos veículos da fabricante neerlandesa VDL, os ônibus da chinesa Yutong podem ser desligados remotamente pelo fabricante, além de permitirem atualizações de software e diagnósticos à distância, diretamente pela rede móvel. Segundo a Ruter, a marca tem acesso direto ao sistema de controle - inclusive à bateria e ao fornecimento de energia - graças a um chip (SIM) romeno embutido.
Na prática, isso implica que o ônibus poderia ser interrompido à distância, seja pela própria Yutong ou por um agente mal-intencionado. Trata-se de um risco considerado hipotético, mas suficiente para a Ruter afirmar ter havido uma "passagem da preocupação à certeza" e anunciar um endurecimento significativo dos seus protocolos: adoção de firewalls, verificação prévia de atualizações e novas exigências de cibersegurança em futuras licitações.
Resposta da Yutong e reforço de cibersegurança
Do lado da Yutong, a empresa garante "se conformar estritamente às leis e regulamentações locais". O grupo afirma que os dados são armazenados e criptografados em um centro de dados da Amazon Web Services (AWS) em Frankfurt. "Ninguém está autorizado a acessar ou operar o sistema" sem a aprovação do cliente, sustenta a companhia. Ainda assim, o assunto vai muito além do episódio norueguês.
Mais de 100 ônibus Yutong na França
Na Dinamarca, a operadora pública Movia - que coloca em circulação 262 ônibus Yutong na região de Copenhague - iniciou uma auditoria semelhante. A conclusão segue a mesma linha: seu diretor de operações admite que, em tese, esses ônibus podem ser desativados remotamente. Ele também ressalta que o problema "não se limita aos veículos chineses, mas a todos os modelos conectados dotados desse tipo de eletrônica".
No Reino Unido, o Ministério dos Transportes e o National Cyber Security Centre também abriram uma investigação. Ônibus Yutong operam, por exemplo, em Bristol, Leicester, Nottingham, no sul do País de Gales e em Yorkshire, levando as autoridades a avaliar se os sistemas podem ser manipulados a partir do exterior.
No continente europeu, a Yutong diz ter mais de 700 ônibus elétricos em operação em 25 países, incluindo 132 na França - em Paris, Estrasburgo, Lyon, Toulouse e Marselha. Os números ilustram o grau de consolidação da presença chinesa no transporte público europeu. E o debate não se restringe ao setor de ônibus: ele remete, por exemplo, à decisão do Estado neerlandês de assumir o controle da fabricante de semicondutores Nexperia, antiga subsidiária chinesa, com base em argumentos de segurança nacional.
A preocupação cresce ainda mais porque veículos elétricos chineses vêm inundando o mercado europeu, em parte por não conseguirem se estabelecer nos Estados Unidos devido a barreiras regulatórias.
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