Quem entrou no Tesla Investor Day 2023 esperando a revelação de um modelo inédito da Tesla saiu frustrado. No lugar de um carro novo, os anúncios da empresa giraram em torno de uma nova fábrica, de produtos eletrificados e de um roteiro de intenções para o futuro do planeta.
Os menos atentos vão dizer que a “montanha pariu um rato”. Já os que acompanharam com mais cuidado vão notar: pode até ter sido um rato - mas é um rato grande, bem alimentado e cheio de energia.
Foco no essencial
Vale deixar de lado o lado mais “acessório” da apresentação: o robô que quer substituir humanos em tarefas repetitivas, ou a ideia de que aviões e barcos podem ser elétricos também - segundo Elon Musk, “é só uma questão de vontade” -, entre outros exemplos. Isso tudo soa mais como futurologia.
Em vez disso, dá para olhar para o que já está posto, para o que é concreto. Primeiro fato: a Tesla está vendendo como nunca - o volume total de vendas cresceu cerca de 40% em 2022.
Segundo fato: no chão de fábrica, a Tesla está um degrau à frente do restante setor automotivo. Um exemplo emblemático desse avanço é o uso da tecnologia «mega-casting» - as conhecidas Giga Press -, que enxugam drasticamente a quantidade de peças, além de reduzir tempo e custos na fabricação das carrocerias.
Na prática, é um sistema de injeção de alumínio em mega-moldes, que entra no lugar das prensas metálicas tradicionais e de soldas feitas por filas intermináveis de robôs.
Nesse ponto, só a Volvo parece conseguir acompanhar a Tesla, e está entre as poucas marcas com planos públicos para levar essa tecnologia às próprias fábricas. Recentemente, a empresa firmou um acordo com uma companhia suíça para empregar esse tipo de máquina na produção de veículos elétricos de próxima geração.
Deixem de lado os «mercados»
Os mercados financeiros não receberam bem o Tesla Investor Day 2023 - e, na verdade, isso não é novidade: em anos anteriores, a reação também não foi boa. O que eles buscam são anúncios com efeito imediato, acima de tudo.
Mas, esquecendo os «mercados» e olhando para o «mercado», a Tesla elevou em 40% o seu volume de vendas globais - chegando a um total de 1,4 milhões de carros produzidos - e, na Europa, tornou-se a 18.ª marca mais vendida, com 230 000 unidades entregues aos clientes. O elétrico mais vendido na Europa também é um Tesla.
Somando a capacidade instalada nas fábricas da Califórnia, Texas, Alemanha e China - sem incluir a nova unidade no México, anunciada ontem -, a Tesla já tem potencial para dois milhões de automóveis por ano. Há espaço para continuar crescendo, e o restante da indústria não pode fingir que não vê o que a Tesla está construindo.
Deixem de lado os «exageros»
Depois do dia de ontem, o valor de mercado da Tesla pode até estar em queda, mas a ambição de Elon Musk e de sua comitiva não. A marca afirma ter como meta produzir 20 milhões de automóveis por ano.
Para chegar lá, ainda segundo Elon Musk, seriam necessários 10 modelos. Parece pouco plausível imaginar a Tesla superando, sozinha, as vendas do Grupo Volkswagen e da Toyota somadas. Para esse cenário acontecer, seria preciso que esses grupos simplesmente não fizessem nada para evitar isso.
É nesse tipo de anúncio que, por vezes, a Tesla se atrapalha. Rendendo boas manchetes, mas não muito além disso. E a Tesla já é bem mais do que um «título» negociado em bolsa.
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