Gosto de mecânica desde pequeno. Para falar a verdade, faltou pouco para eu ter seguido engenharia mecânica na faculdade. E crescer no Alentejo, no meio de XF-21, DT 50 (quem também furou pistão levanta a mão!) e carros velhos, com certeza ajudou a alimentar esse vício.
Por isso, sempre que dá, eu pratico a modalidade “faça você mesmo” (DIY).
Depois de passar um dia inteiro trancado numa oficina fazendo coisas aparentemente simples - como trocar óleo e filtros, desentortar um para-choque e substituir dois rolamentos de um Renault Clio de 99 - passei a respeitar ainda mais quem vive disso. Motivo? Porque, na prática, quase tudo vira um desafio.
Então juntei uma lista com 10 considerações sobre as pedreiras que os mecânicos encaram todos os dias:
1. Tudo é difícil de desmontar
Sempre existe aquele maldito parafuso escondido, num lugar impossível. Sempre. Quem desenha carro devia ser obrigado a desmontar e consertar o que projeta, só para entender “o que é bom para a tosse”…
2. Tudo é difícil de montar
Peça de metal até vai. Agora, tudo o que é plástico, depois que sai, nunca mais volta a ser como era. Ou o plástico “cresce”, ou o carro “encolhe” (vai entender…), mas nada encaixa sem a ajuda daquela ferramenta universal, maravilhosa, que atende pelo nome de… martelo! Bendito martelo.
3. Está com dor nas costas? Paciência
Academia é para os fracos. Se você for mecânico, vai trabalhar músculos que nem sabia que existiam. Na maior parte do tempo, é preciso assumir posições de trabalho dignas do Circo Cardinali e fazer, na ponta dos dedos, uma força comparável à de uma prensa.
Não é brincadeira: quando o dia termina, dói até onde você jurava que não existia.
4. Parafusos e porcas têm vida própria
Por mais firme que seja a sua mão, sempre vai ter um parafuso ou uma porca que escapa e cai justamente no canto mais apertado e mais complicado. E pior: eles se multiplicam. Na hora de montar, inevitavelmente sobram parafusos. Porque… é mais leve!
5. As ferramentas somem
Parece feitiçaria. Você coloca a ferramenta do lado e, 10 segundos depois, ela desaparece como se nunca tivesse existido. “Alguém viu o busca pólos?”, não, claro que não!
A minha teoria é que existem duendes invisíveis que, quando você vira as costas, mudam as ferramentas de lugar. E esses mesmos duendes também fazem bicos com chaves, controles de TV, celulares e carteiras. Então, provavelmente, você já trombou com um…
6. Nunca aparece a ferramenta certa
Você precisa de uma chave 12? Então, na caixa, só vão estar a 8, a 9, a 10, a 11 e a 13. A chave que você precisa geralmente está em Marte… Aqui também acredito com convicção na existência de duendes, fadas e outras criaturas encantadas que passam a vida escondendo esse tipo de ferramenta.
7. Sempre tem mais alguma coisa
Era “só” trocar um rolamento, certo? Aham… Conforme você desmonta, percebe que também vai ter de trocar as pastilhas, os discos e o cardã da transmissão.
Quando se dá conta, aquele “jeitinho” que custaria 20 euros e tomaria três horas já virou 300 euros e um dia inteiro de trabalho. Ótimo… lá se foi o dinheiro das férias.
8. As peças são todas caras
O carro inteiro não vale nada, mas aposto que, se eu desmontar o meu e vender peça por peça, compro 50% da Sonae. Tudo em automóvel é caro - até o item mais insignificante. Se o fisco descobre…
9. Óleo para todo lado
Pode ter todo o cuidado do mundo: você vai se sujar. E não, óleo de motor não hidrata a pele.
10. É um teste de improviso e jogo de cintura
Quanto mais velho for o carro, mais você vai ser colocado à prova. Seja porque aquela peça custa caro demais, seja porque simplesmente já não existe, você vai precisar encontrar outro jeito de resolver. E, normalmente, essas soluções passam por um uso intensivo da ferramenta que mencionei no item nº 2.
Resumindo…
Apesar de tudo, é extremamente gratificante - e até terapêutico - passar um dia inteiro dentro de uma oficina e, no fim, poder dizer: “fui eu que arranjei isto!”.
Eu ainda tenho o sonho de tirar um Caterham da caixa, montar nas horas livres e participar de dias de pista com ele.
Então, da próxima vez que você estiver com o seu mecânico, dê um abraço forte e diga “calma, eu sei pelo que você tem passado”. Mas faça isso antes de ele apresentar a fatura…
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