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Governo lança grande plano de energias renováveis para 60% de energia descarbonizada até 2030

Mulher em escritório com modelos de turbinas eólicas e painel solar, olhando para janelas com turbinas ao fundo.

Enquanto a crise do petróleo ameaça se prolongar, o governo apresentou um amplo plano para as energias renováveis. A meta é chegar a 60% de energia descarbonizada já em 2030.

Em meio ao aumento da tensão nos mercados de energia, o governo anunciou na quinta-feira, 2 de abril, a retomada das licitações para acelerar a expansão da energia eólica em terra e no mar, além da energia fotovoltaica. Desde o início da guerra no Irã e o fechamento do estreito de Ormuz, os preços da energia e dos combustíveis dispararam para os franceses. A gasolina SP95-E10 ultrapassou o patamar simbólico de 2 euros por litro em 1º de abril, alta de 16% em um mês.

Apresentadas em uma coletiva de imprensa em Bercy, as medidas seguem a linha da PPE3, a terceira Programação Plurianual de Energia publicada em 13 de fevereiro, que define a estratégia energética do país para 2026-2035. Com esse pacote, o governo quer mudar a composição do consumo energético na França, saindo de 60% de energias fósseis hoje para 60% de energia descarbonizada até 2030, e 70% em 2035.

Eólica no mar, peça central do dispositivo

A frente offshore é o eixo principal do plano. O governo reuniu duas licitações aguardadas pelo setor (as AO9 e AO10) em um único processo, com potência total de cerca de 10 GW, dividida igualmente entre eólica fixa e eólica flutuante. Segundo Bercy, os primeiros vencedores serão definidos entre o fim de 2026 e o início de 2027.

Os futuros parques serão distribuídos por todas as frentes marítimas francesas: Fécamp-Grand-Large, Bretagne-Nord-Ouest, Bretagne-Sud, Oléron, Narbonnaise Sud Hérault, Golfe du Lion Centre e Golfe de Fos. Ao todo, serão atribuídos dez lotes. Na visão de 2050, a eólica offshore deverá responder por 20% do consumo nacional de eletricidade - participação ainda pequena hoje (a França conta com apenas cerca de 1,5 GW de capacidade offshore instalada).

A mudança de escala, portanto, é expressiva. A meta é ter 15 GW em operação em 2035 e 45 GW em 2050. Ainda assim, o peso atribuído à eólica flutuante (tecnologia que permite aproveitar áreas mais profundas, especialmente no Atlântico e no Mediterrâneo) gera dúvidas dentro da cadeia. Empresas do setor apontam custos maiores e a falta de experiência operacional em larga escala. O Estado prevê assegurar aos operadores um preço de compra inferior a 100 euros por MWh.

Em terra, o governo escolhe a renovação em vez de abrir muitos novos sítios. A diretriz é substituir turbinas antigas por modelos mais potentes e, em alguns casos, em menor quantidade. Essa estratégia, chamada de “repowering”, busca elevar a geração ao mesmo tempo que reduz o impacto visual na paisagem. O objetivo é chegar a 31 GW em 2030 e entre 35 e 40 GW em 2035, ante cerca de 24 GW hoje. Uma licitação específica para eólica onshore está prevista já para o mês de maio.

O plano também tenta reduzir atritos políticos, já que a eólica em terra segue sendo fonte de controvérsia em diversos territórios rurais. Ao priorizar a modernização do parque existente, o Executivo pretende diminuir disputas judiciais e resistências locais que, nos últimos anos, frearam inúmeros projetos.

Nuclear e solar como apoio

A energia solar mantém seu ritmo de crescimento. A PPE3 prevê 48 GW de capacidade instalada em 2030 e entre 55 e 80 GW em 2035, contra cerca de 30 GW no fim de 2025. Duas licitações voltadas ao fotovoltaico são esperadas para julho. Ainda assim, o governo quer impor limites a essa expansão. Depois de anos de avanço acelerado - por vezes em detrimento de áreas agrícolas -, a prioridade passa a ser um desenvolvimento “razoado”, favorecendo telhados, estacionamentos e áreas industriais degradadas. O tema da impermeabilização e ocupação do solo segue como ponto de atenção tanto para organizações agrícolas quanto para autoridades locais.

O governo também seguirá apostando na energia nuclear. A crise no estreito de Ormuz evidencia que essa fonte permite à França conter a alta dos preços da eletricidade, enquanto outros países europeus - mais dependentes do gás - sentem o choque com maior intensidade.

Assim, a PPE3 reafirma a construção de seis reatores EPR2, cujas primeiras entradas em operação estão previstas a partir de 2038, com a possibilidade de mais oito reatores. Paralelamente, os 57 reatores atuais serão estendidos e otimizados para alcançar produção de 380 TWh já em 2030. A hidreletricidade também é reforçada, com aumento de 2,8 GW na capacidade de barragens, o que representa alta de 11%.

Retornos econômicos ainda a comprovar

O governo calcula que a execução da PPE3 criará mais de 120 000 empregos adicionais até 2030, sobretudo no nuclear, no fotovoltaico e na eólica offshore. O pacote também deve diminuir a conta anual de importação de energias fósseis, estimada em quase 60 bilhões de euros.

Roland Lescure, ministro da Economia, fez questão de enfatizar a complementaridade entre as escolhas. As renováveis custam menos e podem ser implantadas mais rapidamente. Já o nuclear garante a base da produção descarbonizada.

Resta, porém, o desafio da implementação. Há anos, a França apresenta distância entre metas e a entrega efetiva dos projetos. A morosidade dos trâmites administrativos, as disputas por uso do solo e a aceitação local (principalmente para eólica e solar) continuam sendo barreiras relevantes para uma aceleração do ritmo. Uma cláusula de revisão está prevista para 2027 para ajustar a trajetória, se necessário.

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