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Fiat Uno Turbo I.E.: o lado bom e o lado ruim

Carro vermelho Fiat Uno Turbo IE exposto em museu automotivo com outras peças ao fundo.

Alguns textos pesam para escrever. Pesam porque eu sei, desde a primeira linha, que vou precisar falar mal de um carro que, mesmo com inúmeros defeitos, eu adoro. Adoro muito. Então, vamos começar pelo lado bom do inesquecível Fiat Uno Turbo I.E. - porque, dali em diante, é só ladeira abaixo.

Pois é… que motor!

Eu tive a chance de guiar um e - "valha-nos Nossa Senhora do Torque e dos Cavalos de Potência"! Que arrancada! Que vontade de ir para a frente!

Se, num futuro distante, eu fosse obrigado a viajar de volta no tempo e resgatar um modelo para mostrar aos meus netos como eram os motores e os carros antes de serem dominados pelos gênios da eletrônica, eu traria um Fiat Uno Turbo I.E.. Um bicho: mortal, doido, imprevisível e nada seguro.

Até 3000-3200 rpm, o famoso motor 1.4 Turbo rendia pouco ou quase nada; mas, dali em diante, saiam da frente porque ele vinha. O turbo de geometria fixa, com 0,8 bar, enchia os "pulmões" e só deixava de despejar potência já perto das 6000 rpm.

Era um motor de humor instável: ou entregava tudo, ou não entregava nada. Não existia meio-termo. Isso tornava bem complicada a condução em estradas mais sinuosas - mas, por outro lado, deixava tudo muito mais emocionante.

Afinal, estamos falando de um 1400 cm³ - o antecessor vinha com um 1.3 l - que, mesmo com apenas oito válvulas e injeção multiponto, por causa da sobrealimentação despejava uns belos 118 cv. Para a época, era referência - as más línguas diziam que tinha mais, na casa dos 130 cv…

Motor memorável, chassi também - só que não pelos melhores motivos

Mas, se o motor era realmente inesquecível por esse temperamento bipolar, o mesmo não dá para dizer do chassi. Perdoem o exagero, mas deve existir por aí carroça de burro com comportamento dinâmico mais digno do que este Fiat Uno Turbo I.E..

Na traseira, havia um eixo semi-rígido que, além de ser tão confortável quanto um sofá de granito, dava ao Turbo I.E. uma confiança tão sólida quanto a de um político. Quase nunca fazia o que deveria e, nos piores momentos, simplesmente "pedia demissão" - piorando situações que, por si só, já eram delicadas.

Na frente, a coitada da dianteira fazia o possível para engolir os 160 Nm de torque, que chegavam sempre de uma vez. Pelo menos os freios faziam o trabalho com brilhantismo. Um brilhantismo que só era arranhado pelo tamanho ridículo das rodas e pneus: 175/65 R13 - 118 cv, lembram?

Equipamentos eram o ponto forte

Por dentro, ao contrário do rival Volkswagen Polo G40, que não tinha absolutamente nada - nem mesmo travamento central das portas ou vidros elétricos -, este tinha de tudo e mais um pouco. Um ótimo volante de uma conhecida marca italiana, uma lista generosa de equipamentos de série e um bom espaço interno. Só faltava uma coisa: qualidade de construção. Rangidos e vibrações já vinham no pacote.

Enfim… um carro que era o retrato do seu tempo. Sem grandes preocupações com consumo, emissões poluentes ou com aquele conceito esquisito, para a época, chamado segurança.

Por outro lado, eram dias em que automóvel rimava com despreocupação e diversão. E isso, por si só, já é motivo mais do que suficiente para elogiar um carro que, no fim das contas, até dá para dizer que não tinha defeitos. Digamos que tinha, isso sim, caprichos. Era um carro cheio de caprichos! E isso nem é necessariamente ruim. Até porque, para quem queria paz e sossego, existiam outras opções…

Os jovens lobos que sobreviveram à experiência guardam saudade. Hoje, menos jovens do que há 20 anos, dá para encontrá-los na estrada, tranquilos ao volante de propostas muito mais racionais e seguras. Faz tempo que deixaram o clube dos caixotes rápidos. Os tempos mudaram.

Fora do assunto: Achei uma imagem interessante do painel bem completo de um Fiat Uno Turbo I.E., supostamente fotografada em Portugal. Ao que parece, tinha gente que acreditava que o pequeno Turbo I.E. aguentava mais alguns cavalos extras:


Sobre o "Glórias do Passado." É a rubrica da Razão Automóvel dedicada a modelos e versões que, de alguma forma, se destacaram. Gostamos de relembrar as máquinas que um dia nos fizeram sonhar. Embarque com a gente nessa viagem no tempo aqui na Razão Automóvel.


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