Não é novidade que o debate sobre veículos elétricos vem, há muito tempo, carregado de afirmações feitas com muita certeza. Há quem diga que eles quase não reduzem emissões, que o inverno elimina suas vantagens e que custam muito mais do que carros a gasolina.
Um novo estudo do MIT colocou esses argumentos sob uma verificação ampla, avaliando-os em conjunto com um nível de detalhe e rigor superior ao da maioria das análises anteriores.
O resultado é claro: para a maior parte dos norte-americanos, na maior parte dos cenários, os EVs reduzem as emissões de forma significativa.
EVs agora são competitivos em custo
Os pesquisadores concluíram que os EVs, de modo geral, já competem em custo com carros a gasolina - e que essa vantagem financeira se mantém em um conjunto bem mais amplo de condições do que muitos críticos costumam pressupor.
O estudo foi conduzido por Marco Miotti, pesquisador sénior na ETH Zurich. Jessika Trancik, professora no mesmo instituto, assina como autora sénior.
O grupo também lançou uma versão atualizada da sua ferramenta pública no site carboncounter.com.
Essa ferramenta permite comparar as emissões ao longo da vida útil e o custo total de propriedade de praticamente qualquer carro disponível hoje no mercado.
Para além de pesquisas anteriores
Boa parte dos estudos que colocam lado a lado carros elétricos e a combustão considera apenas alguns fatores, sem reunir todos os elementos relevantes.
Em geral, entram no cálculo coisas como quão limpa é a rede elétrica local, quanto custa o combustível e, às vezes, algum dado climático básico. Isso ajuda até certo ponto, mas deixa muitas variáveis importantes de fora.
"Até onde sabemos, houve poucas iniciativas até agora que juntam todos esses fatores. Mas, se alguém quer comprar um carro e entender melhor os fatores que afetam emissões e custos, essa abordagem holística é importante", afirmou Miotti.
A equipa do MIT montou uma estrutura analítica que integra dados de milhares de CEPs nos EUA e aprofunda até o nível do comportamento individual de condução em cada local.
O modelo incorpora a composição local da eletricidade, ciclos típicos de condução, densidade de tráfego, perfis meteorológicos, preços de gasolina e eletricidade, entre outros componentes.
Para isso, os cientistas combinaram dados de pesquisas nacionais sobre deslocamentos com registos detalhados de GPS, incluindo padrões de aceleração e a distância que as pessoas tendem a percorrer em diferentes dias da semana.
A meta era responder não apenas se os EVs são melhores, mas para quem eles são melhores - e em quais condições.
Revelações a partir dos dados
Em grande parte dos Estados Unidos, um veículo elétrico a bateria reduz as emissões de gases de efeito estufa em algo entre 40 e 60% quando comparado a um carro a gasolina equivalente.
Os maiores ganhos aparecem em áreas urbanas, onde a densidade de tráfego é mais alta e a rede elétrica, em média, costuma ser mais limpa.
Entre as variáveis que mais influenciam os resultados, por ordem de relevância, estão: a limpeza da matriz elétrica local, a densidade do tráfego, o quanto o condutor roda por ano e o clima.
As quatro contam para o resultado final, mas nenhuma delas, isoladamente, “manda” no cenário do jeito que alguns comentários sugerem.
Um argumento frequente sobre clima frio sustenta que os EVs perdem tanta autonomia e eficiência no inverno que qualquer benefício em emissões desaparece. Quando se olha de perto, essa ideia não se sustenta.
Embora uma noite extremamente fria num lugar como a Dakota do Norte possa reduzir a eficiência energética de um veículo elétrico a bateria em até 50%, esse número vem de uma única noite - e não de um ano inteiro.
"Descobrimos que, mesmo nas condições mais desfavoráveis, os EVs ainda reduzem emissões de forma substancial", disse Miotti.
Na média anual, ao considerar um ano de condução em climas frios, o benefício em emissões continua a ser relevante.
Variáveis que moldam a interpretação
O comportamento de condução dos indivíduos mostrou ter um peso tão grande quanto os fatores regionais.
Quem conduz com frequência, percorre longas distâncias e passa muito tempo em trânsito pesado tende a obter um benefício maior em emissões ao optar por um EV, em comparação com quem não tem esse padrão de uso.
Esse resultado desloca parte do foco do debate: menos apenas sobre geografia e mais sobre o perfil do condutor e como o carro é utilizado.
Esclarecendo o debate
É aqui que vive boa parte da hesitação do público - e, nesse ponto, as conclusões são bastante tranquilizadoras.
No custo total de propriedade ao longo da vida útil, os EVs são competitivos em relação a veículos equivalentes com motor a combustão. E isso sem incluir, na conta, os créditos fiscais federais para veículos limpos.
Em regiões onde a eletricidade é relativamente barata, veículos elétricos a bateria acabam sendo mais económicos do que híbridos plug-in e do que carros convencionais quando se considera toda a vida do veículo.
Os autores tiveram o cuidado de trabalhar com preços de energia calculados por médias ao longo do tempo, em vez de escolher valores de um único momento.
A intenção foi impedir que a análise fosse distorcida por picos ocasionais - aqueles movimentos que, de tempos em tempos, fazem a gasolina parecer excepcionalmente cara ou excepcionalmente barata.
Com isso, o estudo compôs um retrato mais limpo, alinhado com condições típicas ao longo do tempo, e não com um instante específico do mercado.
O futuro é elétrico
Um dos achados mais relevantes do estudo está em como a equação pode mudar de forma marcante à medida que as redes elétricas ficam mais limpas com o passar do tempo.
Hoje, os benefícios em emissões de conduzir um EV variam bastante entre regiões, em grande parte porque a eletricidade é muito mais limpa em algumas partes do país do que em outras.
À medida que as redes se tornarem mais limpas em todo o território, essa variação regional tende, inevitavelmente, a diminuir ao longo do tempo.
"Embora tenhamos descoberto que a matriz elétrica é um grande motor da variação espacial nas economias de emissões dos EVs, a rede elétrica está a descarbonizar em todo o lado", afirmou Miotti.
"À medida que isso acontecer, as economias de emissões no espaço vão tornar-se mais homogéneas para os EVs, mas as diferenças entre um condutor e outro vão permanecer", acrescentou.
Custo dos EVs e próximos estudos
A equipa pretende, no futuro, expandir a estrutura analítica em algumas frentes. A principal é acrescentar uma dimensão temporal.
Isso permitirá capturar como as mudanças nos preços de veículos e de energia alteram os resultados ao longo do tempo e, possivelmente, levar o modelo para além dos EUA, abrangendo outras regiões.
Por enquanto, o estudo acrescenta um elemento novo ao debate sobre EVs: a investigação do MIT oferece respostas sistemáticas, baseadas em evidências, às dúvidas mais comuns de quem tenta decidir se já chegou o momento de abandonar o abastecimento com combustíveis fósseis e migrar para a eletrificação.
O estudo completo foi publicado na revista Environmental Research Letters.
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